A praticidade parece ser a marca registrada deste casal. Imagino eles discutindo: "Essa metade é minha e aquela outra é sua". Bárbaro!
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
QUERIDA, VAMOS NOS SEPARAR?
domingo, 5 de outubro de 2008
PEDRO VOADOR

Pedro se levantou mais uma vez sentindo todo o peso do mundo sobre os seus ombros, como se nada mais fizesse sentindo; como se alguma atitude drástica precisasse ser tomada para dar vazão à sua ira reprimida há tanto tempo.
Naquela manhã não havia uma mesa posta. Nenhum café, nem mesmo o pão. Aquela cena era cotidiana, assim como o fato de sua esposa sequer se preocupar em arrumar a casa. Aquela seria apenas mais uma situação entre tantas outras que ele era obrigado a engolir, mas aquele dia foi a gota d’água para Pedro.
Pedro dirigiu-se até a sala e viu a sua esposa dormindo nua com um de seus muitos amantes. Aquilo não passaria mais em branco. Pedro foi até a cozinha, pegou a maior e mais afiada faca da gaveta, e puxou com força o cabelo da mulher infiel que teve tempo apenas de dar um grito surdo antes de sentir a sua garganta ser cortada. Quanto ao amante, tornou-o eunuco. Foi ainda no quarto do filho e o arrancou da cama, jogando-o na rua debaixo de socos, pontapés e gritos de “Vagabundo!”. A filha foi poupada. Pedro fez as malas dela e a mandou esperar do lado de fora. Em seguida colocou fogo na casa. Aquele dia estava realmente sendo diferente.
No caminho para a fábrica, Pedro deixou a filha em um convento. Pediu desculpas por ter sido um pai frouxo e despediu-se. Seguiu o seu caminho, mas não sem socar com vontade o motorista mal-humorado do ônibus que o xingava todos os dias. Quebrou-lhe os dentes e um braço, mas só depois de chegar ao trabalho.
Na empresa, Pedro não poupou seu chefe. Pegou-o no escritório com a amante/secretária. Expulsou a mulher e deu uma surra homérica em seu patrão. Em seguida o jogou pela janela fazendo com que caísse – quase sem vida – sobre o capô do seu carro importado.
Depois de tocar um terror e descontar a sua fúria em todos aqueles que já o haviam humilhado alguma vez em sua vida, Pedro subiu no telhado da fábrica e ficou ali parado perto do parapeito. O corpo de bombeiros chegou e iniciou-se uma negociação para que ele não pulasse. O seguinte diálogo foi ouvido pelas pessoas que acompanhavam o desenrolar dos acontecimentos:
– Pedro, desce daí. A vida não é tão ruim assim – disse o bombeiro.
– Isso porque você não vive a minha vida! – exclamou Pedro cinicamente.
– Mas nem tudo deve ser tão ruim, Pedro. Nós podemos ajudá-lo com uma boa orientação, apenas não pule – disse o bombeiro em desespero.
– Não há mais nada para mim nesta porcaria de mundo. Cansei de tudo e de todos – disse o homem enquanto se aproximava ainda mais da beirada.
– Qual é amigão, vamos descer e conversar um pouco em um local mais seguro. Você pode contar com a nossa ajuda – replicou o bombeiro.
Pedro olhou para o negociador e a palavra “amigão” ressoava em sua mente. Ele nunca teve amigos. Ninguém jamais havia se preocupado em perguntar a ele se estava bem ou não, se precisava desabafar... Nunca uma pessoa havia lhe estendido mão, e somente agora alguém aparecia querendo ajudá-lo? Só agora que tudo já estava perdido é que alguém reparou que ele existia? Depois de procurar ajuda em tantos lugares sem nunca encontrar alguém que o apoiasse, só neste derradeiro momento em que ele já havia feito tanto estrago é que alguém queria lhe oferecer auxílio? Então, indignado, Pedro olhou para o bombeiro e gritou com toda força:
– Pega essa merda de piedade e enfia no cu! – e pulou em direção ao concreto com um estranho sorriso de satisfação estampado no rosto.
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