domingo, 5 de outubro de 2008

PEDRO VOADOR

Naquele dia Pedro havia acordado com os primeiros raios de sol entrando pela janela. Com seus mais de 55 anos de idade, e 40 de muito trabalho árduo, ele já estava chegando ao limite da sua paciência. Trabalhava há mais de 20 anos na mesma empresa agüentando todo tipo de humilhações. Em casa, as coisas também não estavam muito bem. Sua esposa tinha um caso diferente a cada 15 dias, seu filho era um vagabundo que vivia enfiado em encrencas e sua filha de 16 anos estava grávida de um funkeiro.

Pedro se levantou mais uma vez sentindo todo o peso do mundo sobre os seus ombros, como se nada mais fizesse sentindo; como se alguma atitude drástica precisasse ser tomada para dar vazão à sua ira reprimida há tanto tempo.

Naquela manhã não havia uma mesa posta. Nenhum café, nem mesmo o pão. Aquela cena era cotidiana, assim como o fato de sua esposa sequer se preocupar em arrumar a casa. Aquela seria apenas mais uma situação entre tantas outras que ele era obrigado a engolir, mas aquele dia foi a gota d’água para Pedro.

Pedro dirigiu-se até a sala e viu a sua esposa dormindo nua com um de seus muitos amantes. Aquilo não passaria mais em branco. Pedro foi até a cozinha, pegou a maior e mais afiada faca da gaveta, e puxou com força o cabelo da mulher infiel que teve tempo apenas de dar um grito surdo antes de sentir a sua garganta ser cortada. Quanto ao amante, tornou-o eunuco. Foi ainda no quarto do filho e o arrancou da cama, jogando-o na rua debaixo de socos, pontapés e gritos de “Vagabundo!”. A filha foi poupada. Pedro fez as malas dela e a mandou esperar do lado de fora. Em seguida colocou fogo na casa. Aquele dia estava realmente sendo diferente.

No caminho para a fábrica, Pedro deixou a filha em um convento. Pediu desculpas por ter sido um pai frouxo e despediu-se. Seguiu o seu caminho, mas não sem socar com vontade o motorista mal-humorado do ônibus que o xingava todos os dias. Quebrou-lhe os dentes e um braço, mas só depois de chegar ao trabalho.

Na empresa, Pedro não poupou seu chefe. Pegou-o no escritório com a amante/secretária. Expulsou a mulher e deu uma surra homérica em seu patrão. Em seguida o jogou pela janela fazendo com que caísse – quase sem vida – sobre o capô do seu carro importado.

Depois de tocar um terror e descontar a sua fúria em todos aqueles que já o haviam humilhado alguma vez em sua vida, Pedro subiu no telhado da fábrica e ficou ali parado perto do parapeito. O corpo de bombeiros chegou e iniciou-se uma negociação para que ele não pulasse. O seguinte diálogo foi ouvido pelas pessoas que acompanhavam o desenrolar dos acontecimentos:

– Pedro, desce daí. A vida não é tão ruim assim – disse o bombeiro.
– Isso porque você não vive a minha vida! – exclamou Pedro cinicamente.
– Mas nem tudo deve ser tão ruim, Pedro. Nós podemos ajudá-lo com uma boa orientação, apenas não pule – disse o bombeiro em desespero.
– Não há mais nada para mim nesta porcaria de mundo. Cansei de tudo e de todos – disse o homem enquanto se aproximava ainda mais da beirada.
– Qual é amigão, vamos descer e conversar um pouco em um local mais seguro. Você pode contar com a nossa ajuda – replicou o bombeiro.

Pedro olhou para o negociador e a palavra “amigão” ressoava em sua mente. Ele nunca teve amigos. Ninguém jamais havia se preocupado em perguntar a ele se estava bem ou não, se precisava desabafar... Nunca uma pessoa havia lhe estendido mão, e somente agora alguém aparecia querendo ajudá-lo? Só agora que tudo já estava perdido é que alguém reparou que ele existia? Depois de procurar ajuda em tantos lugares sem nunca encontrar alguém que o apoiasse, só neste derradeiro momento em que ele já havia feito tanto estrago é que alguém queria lhe oferecer auxílio? Então, indignado, Pedro olhou para o bombeiro e gritou com toda força:

– Pega essa merda de piedade e enfia no cu! – e pulou em direção ao concreto com um estranho sorriso de satisfação estampado no rosto.

3 comentários:

Daniel disse...

Voa Pedro, voa José, voa Maria, voa...

Fernando disse...

Poderíamos voar de formas melhores...
Mas infelizmente o mundo aind não está preparado para os ensinamentos que tivemos Há mais de 2000 anos

Carlos disse...

Gostei das atitudes dele. Pena q se matou, pois provavelmente sua vida iria melhorar, sem tantos estorvos no seu caminho.